O Dia Nacional da Cultura Científica foi
criado em 1996 em Portugal. Foi escolhida a data de 24 de novembro para a sua
celebração, pois foi neste dia (em 1906), que nasceu Rómulo de Carvalho, o
professor de Física e Química responsável pela promoção do ensino de ciência e
da cultura científica em solo nacional. Rómulo de Carvalho foi também poeta,
sob o pseudónimo de António Gedeão.
Deixamos aqui este poema em jeito de homenagem.
Deixamos aqui este poema em jeito de homenagem.
As folhas dos plátanos desprendem-se
e lançam-se na aventura do espaço,
e os olhos de uma pobre criatura
e os olhos de uma pobre criatura
comovidos as seguem.
São belas as folhas dos plátanos
São belas as folhas dos plátanos
quando caem, nas tardes de Novembro
contra o fundo de um céu desgrenhado e sangrento.
Ondulam como os braços da preguiça
no indolente bocejo.
Sobem e descem, baloiçam-se e repousam,
traçam erres e esses, ciclóides e volutas,
no espaço escrevem com o pecíolo breve,
numa caligrafia requintada, o nome que se pensa,
e seguem e regressam,
dedilhando em compassos sonolentos
a música outonal do entardecer.
contra o fundo de um céu desgrenhado e sangrento.
Ondulam como os braços da preguiça
no indolente bocejo.
Sobem e descem, baloiçam-se e repousam,
traçam erres e esses, ciclóides e volutas,
no espaço escrevem com o pecíolo breve,
numa caligrafia requintada, o nome que se pensa,
e seguem e regressam,
dedilhando em compassos sonolentos
a música outonal do entardecer.
São belas as folhas dos plátanos espalhadas no chão.
Eram lisas e verdes no apogeu
da sua juventude em clorofila,
mas agora, no outono de si mesmas,
o velho citoplasma, queimado e exausto pela luz do Sol,
deixou-se trespassar por afiados ácidos.
A verde clorofila, perdido o seu magnésio,
vestiu-se de burel,
de um tom que não é cor,
nem se sabe dizer que nome tenha,
a não ser o seu próprio,
folha seca de plátano.
A secura do Sol causticou-a de rugas,
um castanho mais denso acentuou-lhe os
nervos,
e esta real e pobre criatura,
vendo o solo coberto de folhas outonais
medita no malogro das coisas que a rodeiam:
dá-lhes o tom a ausência de magnésio;
os olhos, a beleza.
vendo o solo coberto de folhas outonais
medita no malogro das coisas que a rodeiam:
dá-lhes o tom a ausência de magnésio;
os olhos, a beleza.
António Gedeão
In, Poemas póstumos de
Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1983
